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Da promessa à desilusão (26/07/2010 - )

A cerca de 12 km do Centro do município de Candelária, no Vale do Rio Pardo, um projeto idealizado no ano de 1996 objetivava a criação, no local, de uma grande estrutura paleontológica que traria desenvolvimento social e econômico à região. Isso porque o lugar vinha sendo explorado há anos por conta de guardar um patrimônio da humanidade: fósseis de animais pré-históricos. 




O projeto pertencia à Fundação Zoobotânica, de Porto Alegre, onde fora idealizado pelo Dr. Jorge Ferigollo. Previa a utilização de 172 hectares para exploração de fósseis e implantação de um parque temático. Para isso, treinaria colonos para fazer rotas turísticas, promoveriam vários cursos de alfabetização e de línguas estrangeiras no interior, restaurariam casas nas proximidades, abririam museus onde seriam expostas peças arqueológicas. Além disso, espalhariam fósseis por localidades do município, onde uma réplica de cada dinossauro identificaria o local.  Toda essa concepção foi orçada em três milhões de dólares, que seriam financiados pelo Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID), a fundo perdido.




Segundo a presidente, na época, da Associação Pró-Vistara (representante da comunidade candelariense), que trabalhava em parceria com a Fundação Zoobotânica, Marli Marlene Hintz, ?a previsão era de, no mínimo, 1000 turistas por dia. Candelária entrou em cheio neste projeto, pois somos um município pequeno, baseado na economia familiar através do fumo, e nesse caso, poderíamos alavancar a economia?.




Dr. Ferigollo, tendo o projeto em mãos e o apoio do Governo do Estado, na gestão de Antônio Britto, visitou a prefeitura para negociar sobre a questão. ?Surpreendentemente, o Poder Público disse que não tinha interesse?, conta Marli. Mas o esmero de Ferigollo não o deixou cabisbaixo. Após algum tempo de tratativas, que incluíam palestras à população, conseguiu o apoio da comunidade. Sendo assim, o projeto foi aprovado porque a cidade possuía as exigências básicas do BID para que a verba fosse liberada. ?O Estado entraria com a estrutura para compensar a verba dispensada pelo BID?, explica Marli.


Projeto engavetado


A cidade estava apta a receber a estrutura e a população eufórica com os benefícios que viriam. A obra iria se desenvolver em quatro módulos. Iniciou no governo Britto e teve continuidade no governo de Olívio Dutra, quando o dinheiro que sobrou das pesquisas do primeiro módulo foi liberado pelo BID para as desapropriações. Cerca de 72 hectares de terra foram desapropriados e as pessoas que ali moravam foram indenizadas.




No entanto, o futuro que se mostrava promissor não se concretizou. Os diferentes pontos de vista dos governantes travaram o desenvolvimento do projeto. Depois de Olívio, Germano Rigotto assumiu o Governo do Estado e ?achou que era um projeto muito grande para uma cidade muito pequena?, conta Marli. Como o Governo Municipal não interviu, o projeto não teve andamento.




?O projeto existe até hoje, pois não houve rescisão do contrato, e pelo que me consta, o BID ainda manda o dinheiro para o Governo do Estado. Porém não se sabe aonde é investido esse dinheiro?, afirma Marli. ?É uma lástima, e por isso Candelária vive num retrocesso?, avalia.


?Tiraram muito material daqui, muitos fósseis?


A família de Joaquim e Marieta da Cunha tinha uma propriedade de 18 hectares na área que foi desapropriada no primeiro módulo do projeto. Receberam a notícia em 1997 e uma proposta inicial de 49 mil reais pelo local. Porém, assim como os demais moradores não aceitaram. ?Havia gente que morava ali há mais de 50 anos. Teve vizinhos que ficaram revoltados com nós. As pessoas entravam em nossas terras para ver o local e tirar os ossos e pedras, daí acharam que nós éramos cúmplices, que era nossa ideia a desapropriação?, conta Joaquim.




Desde que foram morar na área hoje desapropriada, há 24 anos, muita gente entrava e saía das terras, extraindo ossos e pedras, muitas vezes sem pedir. ?Eles entravam e a gente não sabia nem quem era. Vinham de grupo, chegavam com caminhão cheio de gente?, lembra Marieta. ?Tiraram muito material daqui, muitos fósseis?, completa Joaquim.




Há uma placa que identifica o local, descerrada com a presença do governador, no ano de 1998, onde está escrito que cerca de 230 milhões de fósseis foram retirados dali, entre os quais três espécies de animais pré-históricos nunca antes descobertos. Esse material está hoje em universidades como Harvard, nos Estados Unidos, Instituto Geológico da Alemanha, Museu de Londres, na Inglaterra, Museu Nacional, no Rio de Janeiro, entre outros.




Os moradores da região entraram na justiça para reavaliar o valor das terras. Ao final dos trâmites judiciais, que se estenderam por cerca de três anos, todos foram ressarcidos ?de forma satisfatória?, segundo Joaquim. O morador acrescenta ainda que nunca pensou em cobrar o material que foi tirado de sua propriedade na época, o qual ele sabia que valia muito.




Hoje reside em uma bela propriedade a menos de quatro km da antiga morada. ?No começo estranhamos e sentimos saudade. Hoje estamos acostumados com o local onde moramos. É bem bom e próximo à cidade?, completa com ar de satisfação.


Cenário de abandono


O cenário no local, é desolador. Uma ao lado da outra, as casas vizinhas e agora desabitadas, com suas fachadas descoloridas pelo tempo, aludem a um projeto que visava o desenvolvimento da região, mas que por motivos políticos não teve continuação. ?Lamento muito a situação do local, porque criaram a expectativa e deixaram assim. Nada foi feito?, declara o atual prefeito de Candelária, Lauro Mainardi, há seis anos no poder executivo. 




Segundo ele, são terras que ficaram improdutivas e que deixaram, de alguma forma, de gerar renda. ?Pessoas saíram de suas casas, onde moravam durante toda sua vida, por uma causa que não teve continuidade, infelizmente?, ressalta.




Lauro conta, que ?de tempos em tempos?, vem algum representante do projeto dar satisfação e dizer que será ?tocado para frente?. Porém, nada de concreto é realizado. De acordo com prefeito, a Gestão Municipal não tem fôlego para chamar para si a responsabilidade do grandioso projeto. Assim, Candelária, mais uma vez, ficou a mercê de interesses políticos. 






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